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A chegada de "Como Eu Era Antes de Você" à Netflix reacende o debate sobre o amor em tempos modernos, onde o afeto muitas vezes é visto como um investimento de risco. Este filme, adaptado do aclamado romance de Jojo Moyes, mergulha profundamente nas complexidades do cuidado, do desejo e da escolha pessoal, sem cair em slogans edificantes.
Longe de ser uma narrativa confortável ou moralmente conciliadora, a história de Louisa Clark e Will Traynor continua a provocar reações extremas. Prepare-se para uma jornada emocional que vai muito além do esperado, questionando nossos próprios limites e percepções sobre a vida.
O filme se destaca por sua capacidade de abordar temas delicados com uma honestidade brutal, transformando um aparente romance clichê em uma profunda reflexão existencial, conforme a análise de diversos críticos e espectadores.
Louisa Clark: Uma Protagonista Que Quebra o Molde
Louisa Clark, interpretada com maestria por Emilia Clarke, foge completamente do arquétipo da heroína inspiradora. Ela é mostrada como uma jovem desorganizada, verborrágica e financeiramente encurralada, presa à dependência de sua família.
Seu trabalho como cuidadora surge menos de uma vocação e mais de uma urgência material, uma realidade com a qual muitos podem se identificar. Clarke sustenta essa ambiguidade com inteligência notável, mostrando que o carisma de Lou não vem da pureza, mas de sua recusa em ceder ao cinismo.
Sua alegria é prática, quase combativa, uma insistência em viver com cores em um mundo que frequentemente prefere tons neutros. Essa persistência tem um custo, mas é o que a torna tão cativante e real neste romance clichê que se aprofunda na condição humana.
Will Traynor e a Soberania Sobre o Próprio Limite
Sam Claflin, no papel de Will Traynor, constrói um personagem que foge da caricatura do "rico amargurado". Antes do acidente de moto que o deixou tetraplégico, Will vivia sob a ilusão de controle absoluto sobre seu corpo, dinheiro e futuro.
Após o trágico evento, resta-lhe a lucidez cruel de quem entende exatamente o que perdeu. O roteiro não suaviza sua decisão sobre o próprio destino, nem a transforma em um gesto heroico ou inspirador, o que o torna ainda mais impactante.
Will não rejeita a vida por desprezá-la, mas por conhecê-la em excesso em sua nova condição. Sua recusa em negociar sua autonomia é o eixo mais incômodo, mas também o mais honesto, do filme, desafiando a percepção de muitos sobre este tipo de romance clichê.
Um Romance Sem Anestesia Emocional
A relação entre Lou e Will floresce por atrito, não por idealização, o que a torna incrivelmente crível. Ela invade seu espaço com comentários fora de hora, e ele desarma suas tentativas de otimismo com uma ironia cirúrgica e perspicaz.
O afeto genuíno nasce desse embate contínuo, onde nenhum dos dois assume uma função terapêutica para o outro. Lou não "salva" Will, e ele tampouco a "eleva" a um patamar superior, desmistificando a ideia de um romance clichê fácil.
O que existe é uma troca real, com perdas e ganhos distribuídos de forma equitativa entre eles. Quando o sentimento se afirma, não há promessa de um futuro compartilhado, apenas a intensidade do presente, e isso altera completamente o peso e o impacto da história.
Além dos Clichês: Reflexões Duradouras de "Como Eu Era Antes de Você"
Apesar de alguns tropeços, como músicas populares sublinhando emoções e personagens secundários um tanto óbvios, o núcleo dramático de "Como Eu Era Antes de Você" resiste. Esses atalhos narrativos, por vezes, enfraquecem a confiança no espectador, mas não comprometem a essência.
A crítica que acusa o longa de desvalorizar vidas com deficiência ignora um ponto central fundamental: a vida de Will é retratada como cheia de vínculos, prazer e pensamento. O conflito principal não é social, mas profundamente existencial.
Ao final, o filme não oferece conforto nem respostas prontas, o que o diferencia de muitos filmes do gênero. Pelo contrário, ele deixa uma das perguntas mais incômodas e importantes de todas: até onde vai o nosso direito de decidir pelo outro, quando o outro já decidiu por si mesmo?
