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No filme, a caravana parte do Missouri em 1843, Tadlock impõe autoridade e o épico dirigido por Andrew V. McLaglen revela a sujeira moral por trás do mito do Oeste
Desbravando o Oeste, agora disponível no Prime Video, reúne um trio lendário de atores e transforma o romance vencedor do Pulitzer em uma viagem épica e brutal.
A narrativa acompanha uma caravana que deixa o Missouri em 1843, conduzida por um ex-senador obcecado em fundar uma cidade, enquanto disputas de poder corroem a esperança coletiva.
O filme mistura grandiosidade visual e cenas de catástrofe, ao mesmo tempo em que deixa à mostra a violência e as contradições do projeto de expansão, conforme crítica de Felipe Duarte.
Uma caravana de conflitos e lideranças em choque
Na pele do ambicioso William J. Tadlock, Kirk Douglas constrói um personagem monumental, que trata decisões como decretos e entende a autoridade como destino.
Robert Mitchum interpreta Dick Summers, o guia experiente, e imprime no papel a fleuma de quem conhece o caminho e desconfia dos líderes que se acham infalíveis.
Richard Widmark vive Lije Evans, contraponto a Tadlock, um homem de ambição doméstica que reage com orgulho e raiva contida, e que se torna peça central do conflito dentro da caravana.
Roteiro, cenas de perigo e acúmulo de desastres
A travessia vira um catálogo de desditas, com embriaguez, mortes, afogamentos e a execução improvisada de um jovem depois da morte de uma criança sioux.
O acúmulo de catástrofes confere grande espetáculo físico, mas em alguns momentos impede que tragédias individuais ganhem a profundidade que mereciam.
Personagens secundários, interpretados por Sally Field, Katherine Justice e Michael Witney, compõem um núcleo de desejo, culpa e loucura que alimenta a tensão da expedição.
Paisagens, fotografia e direção que misturam beleza e erotismo da conquista
A fotografia de William H. Clothier registra montanhas, desfiladeiros e pradarias com imponência, e a câmera amplia a mitologia do Oeste em tomadas amplas e memoráveis.
Andrew V. McLaglen, ao adaptar o romance de A. B. Guthrie Jr., vencedor do Pulitzer, privilegia a escala épica, mas permite que a sujeira moral apareça entre as belezas naturais.
O resultado é um filme com elenco e fôlego para algo maior, em que o desgaste humano e a perda de inocência acompanham cada remoção de carroça e cada escolha errada.
O país que o épico não enxerga
O tratamento dispensado aos povos indígenas e ao personagem Saunders evidencia a estreiteza histórica do filme, em que os sioux são reduzidos à função dramática dos colonos.
Saunders, vivido por Roy Glenn, tem momentos de dignidade, mas permanece preso à subalternidade sem espaço para questionar a ordem que o oprime.
Mesmo com excelentes atuações, Desbravando o Oeste convive com essa indigência histórica, e nenhuma tomada ampla chega a ocultar a falta de perspectiva ou reflexão sobre os efeitos da colonização.
No desfecho, quando carroças são desmontadas e os pioneiros descem por cordas, o filme deixa claro que a glória prometida foi paga com filhos, lares e sanidade, e que a mitologia do Oeste carrega um preço humano elevado.
