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A literatura brasileira perdeu um de seus nomes mais contundentes. Raimundo Carrero morreu nesta quinta-feira, 16 de junho, aos 78 anos, deixando para trás uma obra literária densa e inesquecível, onde a vida é traição e a redenção raramente encontra seu caminho.
Seu último romance, “A Vida é Traição”, já antecipava em seu título a essência de sua escrita, que sempre investigou o que permanece depois da falta. Agora, a ausência se estende também ao seu nome, mas seu legado literário persiste, forte e pungente.
Carrero dedicou sua vida a explorar os recantos mais sombrios da experiência humana, construindo um universo literário onde a culpa, o desejo e a fé se entrelaçam em narrativas de impacto profundo, conforme detalhado por Carlos Willian Leite em sua análise sobre o autor.
A Paisagem Árdua da Obra de Raimundo Carrero
Nos livros de Raimundo Carrero, a mãe ausente nunca encontra descanso, e o coração dos personagens parece sempre à beira da erupção. A oração é permeada por medo, temor e tristeza, revelando uma espiritualidade complexa e, muitas vezes, dolorosa.
A família, que deveria oferecer abrigo, frequentemente apresenta uma conta a ser paga, por vezes muito tempo depois. O desejo, quase invariavelmente, surge marcado por culpa, remorso e desdita, configurando um ciclo de sofrimento e inquietação.
Deus, em sua ficção, não entra para aliviar ninguém, e o sertão não é apenas um ponto geográfico no mapa. Para Carrero, o sertão é um organismo vivo e cruel, um palco para dramas humanos intensos e sem trégua.
Considerar Carrero apenas como um escritor regional é diminuir a vastidão de sua ficção. Sua escrita é intrinsecamente ligada a Salgueiro, Recife, redações de jornal, ruas e quartos fechados, sempre com a presença de assombrações por perto.
Ele próprio mencionava “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, como uma de suas escolas, especialmente no que tange à construção narrativa. Essa influência revela a universalidade de sua abordagem, que transcende as fronteiras geográficas.
Salgueiro, Recife e as Raízes de uma Ficção Crua
Nascido em Salgueiro, em 1947, a cidade natal de Raimundo Carrero é uma parte viva de sua biografia e pulsa, arde, em toda a sua literatura. O sertão já havia sido retratado de forma áspera na literatura brasileira, mas Carrero criou um território próprio, com suas idiossincrasias e consequências únicas.
A aridez é uma presença constante e devastadora em seus livros. Há momentos em que a paisagem recua, e o que resta são duas pessoas no mesmo cômodo, tentando evitar a frase que ambas conhecem quase por inércia, demonstrando a profundidade psicológica de seus personagens.
Antes de se tornar o escritor laureado, havia o menino de Salgueiro, mexendo nos livros do irmão, guardados no meio da vida comercial da família. Ele lia enquanto a família seguia trabalhando, sem saber que daquelas páginas surgiriam Bernarda Soledade, almas em ruínas e a lendária Perna Cabeluda.
O Recife veio depois, trazendo as manhãs de colégio, a música, o jornalismo e uma cidade atravessada por vozes, fantasmas, solidão e pobreza. No Diário de Pernambuco, sua escrita encontrou o deadline, as noites de fechamento e a urgência da notícia.
Essa experiência jornalística o tirou do retrato do romancista apartado da cidade. Ele conhecia o Recife por seus rumores, histórias, praças e cheiros. A Perna Cabeluda, lenda urbana associada a ele, ainda ecoa em cada leitor, uma assombração que mistura riso e susto.
O Diálogo com Mestres e a Busca por uma Voz Própria
A influência de Ariano Suassuna foi gigantesca na formação de Carrero, e o Movimento Armorial ofereceu a muitos artistas nordestinos uma forma de trabalhar a literatura, música e teatro sem reduzir a linguagem popular a mero artesanato. Contudo, Carrero seguiu seu próprio caminho.
Seus romances exploram o momento em que a celebração já não ajuda, quando a família volta para casa, a porta se fecha e o barulho fica do lado de fora. Nessas casas, o pedido de perdão, quando aparece, é tardio e envergonhado.
A violência passa de uma pessoa a outra em um silêncio abafado. Se Ariano abriu uma estrada de invenção, Carrero a seguiu até o lugar em que a conversa parece vigiada por um fantasma, uma alucinação, uma alegoria triste de vidas sem redenção.
Graciliano Ramos parece sempre presente na prosa de Carrero. “Vidas Secas” retirou o verniz da paisagem, deixando uma língua dura, brutal e seca. Carrero compartilha dessa recusa ao adorno, embora seus personagens padeçam de faltas que nem sempre são visíveis externamente.
São percalços que se revelam aos poucos, como a falta de afeto, de perdão e, muitas vezes, de uma palavra capaz de evitar o dano antes que ele se instale. A miséria social não desaparece de seu horizonte, mas muitas tragédias em sua ficção vêm de verdades guardadas no fundo dos baús, da religião que acusa e do desejo que nasce acompanhado de punição.
Um Legado Sem Redenção, Mas Cheio de Verdade
As casas descritas por Carrero protegem pouco, pois guardam mortos, cobranças e verdades que ninguém teve coragem de dizer. Títulos como “Sombra Severa”, “Maçã Agreste”, “Somos Pedras que se Consomem”, “As Sombrias Ruínas da Alma” e “A Minha Alma é Irmã de Deus” não chegam ao leitor com mensagens amigáveis.
Ao contrário, parecem feitos para incomodar. A maçã é agreste, a sombra pesa, a alma surge alquebrada, e Deus se aproxima de uma figura cruel. Lembram uma casa fechada por muito tempo, com móveis intocados e uma reza repetida sem que se saiba se é fé, costume ou desespero.
A dor costuma vir explicada como um grito, e depois da leitura, permanece um gosto incômodo, como ar parado num quarto fechado há décadas. Seus romances não se abrem como mensagens prontas, e quem entra neles encontra famílias onde a redenção não espera no fim do corredor.
Quando culpa, fé, morte, desejo e família são tratados de forma crua, cruel e brutal, a própria escrita precisa carregar parte dessa resistência. “A Vida é Traição” não precisa ser lido como uma despedida planejada, mas como a síntese de uma obra que, durante décadas, escreveu contra a parte da vida que promete ordem e, sem aviso, entrega tristeza, perda e solidão.
A morte de Raimundo Carrero encerra um ciclo na literatura brasileira, mas sua obra continua a se mexer, a inquietar. Ele não queria flores depois de morto, e sua resposta à traição da vida não foi a paz dos conformados. Nos livros, a casa permanece fechada, e lá dentro, alguém ainda procura as palavras.
