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O Que o PL 2386/2023 Muda (ou Não) na Sua Vida como Psicólogo — e o Que Você Precisa Decidir Agora

Imagem de rascunho automático mostrando psicólogos sérios em ambiente clínico, refletindo tensão e decisão

Tempo de leitura: 6 minutos

A Tensão que Ninguém Está Explicando Direito

Imagine que você está entre sessões, com 15 minutos livres, e abre o WhatsApp cheio de links sobre “lei que vai proibir psicanalistas”. Alguns colegas comemorando. Outros indignados. Um paciente seu — que também faz análise com um psicanalista leigo — te manda uma mensagem perguntando se o terapeuta dele “vai ser fechado”.

Você não sabe o que responder. Não porque não é inteligente. Mas porque ninguém traduziu isso de forma honesta para quem está na ponta — atendendo, gerindo consultório, pagando guia de INSS, emitindo recibo.

Esse artigo existe para isso.


O Que o PL 2386/2023 Propõe, de Verdade

O Projeto de Lei 2386/2023, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe restringir o atendimento clínico e psicoterápico a profissionais com graduação em Psicologia ou Medicina com especialização em Psiquiatria.

Na prática, isso significa que psicanalistas sem diploma em Psicologia ou Medicina — que hoje atendem legalmente como ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho (CBO 2515-50) — poderiam ser impedidos de exercer a atividade clínica caso o projeto seja aprovado em sua forma atual.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) apoia a medida, argumentando proteção da saúde mental. As associações psicanalíticas — com peso histórico e técnico inegável — argumentam que a formação analítica tem uma tradição própria (análise pessoal, supervisão, estudo em sociedades), que não passa pela universidade e que isso é constitucional.

Ambos os lados têm argumentos sérios. Minha opinião? O problema real não é a psicanálise — é o mercado de cursos de “graduação em psicanálise” a distância, chancelados pelo MEC, que formam pessoas em meses para atender clientes em sofrimento psíquico. Isso, sim, é um risco concreto à população. A lei acerta o alvo errado ao tentar resolver isso restringindo quem tem décadas de formação rigorosa.


O Que Isso Tem a Ver com o Seu Consultório Hoje

Tudo. E mais cedo do que você imagina.

Cenário 1 — Você encaminha ou recebe encaminhamentos de psicanalistas.
Se o PL avançar, a rede de saúde mental que você construiu pode mudar. Clientes que fazem psicanálise em paralelo ao seu acompanhamento psicológico podem ficar sem esse suporte. Isso afeta o plano terapêutico, o vínculo e, consequentemente, a continuidade dos seus atendimentos.

Cenário 2 — Você trabalha com planos de saúde.
Hoje, planos de saúde já têm restrições sobre quem pode emitir guias e receber reembolso. Se a legislação restringir o exercício da psicoterapia, é provável que as operadoras usem isso como mais um argumento para negar reembolso a pacientes que atendem com profissionais não regulamentados. Isso cria uma pressão indireta na sua agenda — pacientes em busca de profissional “aceito pelo plano”.

Cenário 3 — Você pensa em ampliar serviços ou abrir clínica.
Se você está pensando em montar uma clínica multidisciplinar com psicanalistas, a definição legal do que esses profissionais podem ou não fazer muda o modelo de negócio, o CNAE correto, o enquadramento fiscal e até a responsabilidade técnica do estabelecimento.


O Caso do Consultório que Quase Errou o CNAE

Vou dar um exemplo real (com dados alterados por sigilo profissional).

Uma psicóloga — vou chamá-la de Dra. M — abriu clínica em sociedade com uma psicanalista sem diploma em Psicologia. Na abertura do CNPJ, o contador que não conhecia o setor colocou as duas sob o mesmo CNAE de “atividades de psicologia e psicanálise” (8650-0/06). Até aí, aparentemente correto.

O problema veio quando a clínica tentou credenciar no plano de saúde: a operadora exigiu que todos os profissionais tivessem registro no CRP. A psicanalista não tinha. Resultado: o credenciamento foi negado para ela, o modelo de rateio financeiro da sociedade precisou ser refeito, e o contrato social teve que ser alterado. Três meses de atraso e custos desnecessários — tudo por falta de orientação prévia sobre as implicações jurídico-contábeis dessa composição.

Se o PL 2386/2023 passar, esse tipo de situação vai se multiplicar.


Os Erros Mais Comuns que Psicólogos Cometem Diante Desse Cenário

1. Ignorar o tema por achar que “não é problema meu”.
É. A estrutura do mercado em que você trabalha muda quando a legislação muda. Ficar de fora da discussão não protege seu consultório.

2. Tomar decisões de negócio (sociedade, contratação, credenciamento) sem checar o impacto regulatório.
Abrir clínica com profissionais de formações diferentes exige análise antes — não remendo depois.

3. Emitir recibos ou notas fiscais sem distinguir a natureza do serviço.
“Psicoterapia” e “serviços de psicologia” têm implicações fiscais e éticas distintas, especialmente para fins de reembolso por planos e declaração de IR do paciente.

4. Acreditar que o CBO resolve tudo.
O fato de o psicanalista ter ocupação reconhecida no CBO (2515-50) não significa que ele está protegido para tudo. CBO é reconhecimento de ocupação — não é regulamentação profissional. São instâncias diferentes.


O Que Fazer Enquanto o PL Não É Votado


Fechando: A Pergunta que Fica

Psicólogos que têm clareza sobre o lado administrativo do consultório — enquadramento fiscal, contratos, modelo de sociedade, implicações de credenciamento — conseguem tomar decisões estratégicas quando o cenário muda. Os que não têm ficam apagando incêndio.

A discussão sobre o PL 2386/2023 ainda vai se arrastar. Novas audiências, novos textos, emendas. Quem estiver bem orientado vai atravessar isso ajustando a rota. Quem estiver no escuro vai descobrir o problema quando ele já virou prejuízo.

Se esse artigo fez você pensar “preciso revisar como meu consultório está estruturado”, esse é exatamente o sinal certo. E esse tipo de revisão é exatamente o que uma contabilidade especializada em psicólogos faz — não só para pagar menos imposto, mas para proteger o que você construiu.

Agora a pergunta é sua: você vai esperar o projeto ser votado para descobrir se está preparado — ou vai olhar para isso agora, quando ainda dá tempo de agir?

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