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Por que supermercados brasileiros não conseguem preencher 350 mil vagas mesmo com desemprego em baixa? Salários, flexibilidade e soluções do setor explicadas

Prateleira vazia em supermercado com expressão preocupada de cliente ao fundo, refletindo o enigma prateleiras vazias que impacta o setor.

Tempo de leitura: 7 minutos

A rejeição dos jovens a empregos tradicionais, salários insuficientes e a busca por flexibilidade explicam o abandono do setor, forçando empresas a soluções criativas.

O que antes era uma porta de entrada para o mercado de trabalho formal, hoje se tornou um desafio para um dos maiores setores do país. Os supermercados brasileiros enfrentam uma crise de mão de obra sem precedentes.

Centenas de milhares de vagas abertas simplesmente não encontram candidatos. A dinâmica do mercado mudou radicalmente, e as empresas agora precisam correr atrás dos trabalhadores, um cenário impensável há alguns anos.

Será que o problema está na nova geração de trabalhadores ou nas condições oferecidas? As respostas, conforme informações divulgadas pelo canal Elementar, apontam para uma combinação de fatores complexos que afetam as vagas em supermercados.

A Mudança no Perfil do Trabalhador e a Crise Salarial

Nos anos 2000, trabalhar em supermercado era visto como um rito de passagem, especialmente para jovens em busca do primeiro emprego. No entanto, essa percepção se transformou drasticamente nos últimos anos.

O vice-presidente da Abras, Marcio Milan, observa que "o perfil do trabalhador vem mudando". Os jovens, que antes viam o setor como porta de entrada, agora buscam outras vias.

Milan aponta que "os jovens que tinham o supermercado como o primeiro emprego preferem hoje trabalhos informais devido à maior flexibilidade". Eles querem mais liberdade e menos amarras.

As vagas em supermercados tradicionais, com suas jornadas fixas de 8 horas diárias, muitas vezes sem ar condicionado e com trabalho nos finais de semana, perderam o apelo.

A internet revolucionou o mercado de trabalho, oferecendo alternativas que proporcionam mais liberdade. Com o desemprego na menor série histórica do IBGE, atualmente em 6,6%, a lógica inverteu.

Como destaca Milan, "no passado, o trabalhador procurava emprego. Hoje, são as empresas que procuram o trabalhador". Parece que o jogo virou, e as empresas precisam se adaptar.

Além da rigidez da jornada, o salário é um fator crucial. Em Nova Iguaçu, por exemplo, uma vaga de operador de caixa pagando R$ 1.600 pode parecer uma oportunidade.

No entanto, o pacote de funções incluía reposição de mercadorias, limpeza do chão e outras tarefas. É o famoso "faz tudo", que não recebe por tudo que faz.

Quando comparamos esse valor com o custo de vida, o problema fica evidente. A cesta básica custa cerca de R$ 432, e o aluguel de um apartamento simples pode ultrapassar os R$ 900.

Somando contas de luz e transporte, o salário de R$ 1.600 mal cobre as despesas básicas. Isso empurra muitos para alternativas informais, mesmo sem garantias.

A rotatividade no setor é altíssima. Mesmo quando os salários são ligeiramente aumentados, os trabalhadores não permanecem nas vagas em supermercados por muito tempo.

O economista Fabio Bentes, da CNC, sugere que "Aumentar o salário inicial de admissão acima da variação média do mercado é uma forma de atrair profissionais".

Ele completa, "quando as empresas enfrentam problemas de escassez de mão de obra", essa estratégia é válida. Mas, na prática, nem sempre é suficiente para reter talentos.

As Soluções Desesperadas dos Supermercados

Diante da escassez de mão de obra, os supermercados têm buscado saídas inovadoras, e por vezes, surpreendentes. As vagas em supermercados estão sendo preenchidas de formas inusitadas.

Uma das estratégias foi firmar parceria com quartéis para contratar jovens que acabaram de cumprir o serviço militar obrigatório. A lógica é que a disciplina e rotina militar poderiam se adaptar ao ambiente.

A Abras indica que cerca de 80% desses reservistas conseguem emprego logo após deixar a farda. Essa é uma solução que tem trazido resultados positivos para as vagas em supermercados.

Além disso, o setor tem ampliado a busca por trabalhadores fora do "perfil ideal", como idosos, aposentados e pessoas com deficiência. Esse público demonstra mais estabilidade e disposição.

O Carrefour, por exemplo, contratou 53 mil pessoas via CadÚnico em 2024, buscando famílias de baixa renda. A agilidade nos processos seletivos também se tornou um diferencial.

Ferramentas como a Helppi ajudaram o Tauste a reduzir o tempo de contratação de 15 dias para apenas uma semana. A plataforma cruza perfis e vagas de forma eficiente.

No entanto, contratar é uma coisa, manter é outra. A especialista em RH, Evelyn Rodrigues, enfatiza a importância de um ambiente acolhedor e de oportunidades.

Segundo ela, "sem um processo de integração bem feito, sem plano de carreira, sem um ambiente minimamente saudável, o trabalhador não fica".

A rotina desgastante e a falta de perspectivas fazem com que muitos busquem outras oportunidades, inclusive no setor informal. As vagas em supermercados precisam oferecer mais do que apenas um salário.

O trabalho intermitente também ganhou espaço como uma solução flexível, onde o trabalhador é chamado conforme a necessidade. Embora precarize a relação de trabalho, essa modalidade atrai jovens.

Segundo o economista Cícero Pimenteira da UFRRJ, os jovens "não se veem mais como um exército de trabalho". Eles buscam propósito e autonomia nas suas carreiras.

Pimenteira completa que "eles querem flexibilidade, rotina menos engessada e mais sentido no que fazem". Essa é uma demanda clara que as empresas precisam considerar.

O Dilema das Margens Baixas e a Ascensão do Autoatendimento

Um dos grandes obstáculos para os supermercados investirem em melhores salários e condições é a baixa margem líquida de operação. Essa margem, geralmente, varia entre 2% e 5%.

Isso significa que, de cada R$ 100 vendidos, sobram apenas R$ 2 a R$ 5 para o negócio. Essa realidade limita a capacidade de oferecer remuneração mais atrativa.

Também dificulta justificar um colaborador dedicado para cada função nas vagas em supermercados. Por isso, a acumulação de tarefas se torna uma prática comum, mas desmotivadora.

Essa realidade impulsionou a adoção dos self-checkouts em todo o mundo, e no Brasil não é diferente. Essa tecnologia se tornou uma aposta para as vagas em supermercados.

No Pão de Açúcar, por exemplo, 90% das lojas já utilizam autoatendimento. A consultoria RBR estima que o Brasil já possui cerca de 8 mil unidades de autoatendimento.

Contudo, em países como Reino Unido e EUA, redes já estão removendo essas máquinas devido a reclamações de lentidão, impessoalidade e aumento de furtos e erros.

No Brasil, a tendência ainda é de crescimento para o autoatendimento. Mas a longo prazo, essa pode ser uma questão a ser reavaliada, especialmente se a insatisfação dos consumidores aumentar.

O Futuro do Trabalho no Setor: Precariedade ou Adaptação?

O cenário atual sugere que o supermercado, que já foi o primeiro emprego para muitos, está se tornando o último lugar onde alguém quer estar para a nova geração.

A busca por reservistas, idosos, aposentados e trabalhadores do CadÚnico, somada à aposta no autoatendimento, são reflexos de um setor em profunda transformação.

A rede Oxxo, por exemplo, chegou a adiar a abertura de 30 unidades em São Paulo por não conseguir montar equipes, demonstrando a gravidade do problema.

A rede Hirota também enfrentou dificuldades para preencher 80 vagas em uma nova loja. Precisou realocar 15 funcionários de outras unidades, gerando custos adicionais.

A pergunta que fica é: se a tendência de remover os self-checkouts chegar ao Brasil, o setor terá reservistas e idosos suficientes para suprir a demanda?

A solução não parece ser apenas tapar buracos, mas sim uma revisão profunda do modelo de trabalho, benefícios, tratamento e, claro, salários.

A conta das vagas em supermercados precisa fechar. Para isso, os gestores terão que se adaptar a um novo mercado de trabalho, que valoriza a flexibilidade e o sentido no que se faz.

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