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Em meio à reestruturação pós-pandemia, aéreas no Brasil enfrentam custos em dólar e insatisfação de passageiros, com a qualidade dos serviços no centro do debate.
O setor aéreo brasileiro tem enfrentado um período turbulento, com as principais companhias aéreas do país imersas em processos de recuperação judicial nos Estados Unidos. Essa movimentação, que visa à reestruturação financeira, impacta diretamente a operação das empresas e, consequentemente, a experiência de milhões de passageiros.
Desde a pandemia de Covid-19, que paralisou voos e gerou dívidas bilionárias, as aéreas no Brasil buscam um novo equilíbrio. No entanto, o cenário desafiador tem reacendido o debate nas redes sociais e entre consumidores sobre a qualidade dos serviços prestados.
Casos recentes, como cancelamentos e falhas no transporte, colocam em evidência as dificuldades do setor, que, além da reestruturação, lida com a alta do dólar e um elevado índice de judicialização, conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.
O cenário pós-pandemia e a recuperação judicial das aéreas
A crise sanitária de 2020 foi um golpe severo para as empresas de aviação, que viram suas operações quase paralisarem, mas precisaram manter estruturas de alto custo. Esse desequilíbrio levou a dívidas vultosas e a uma sequência de pedidos de recuperação judicial.
A Latam Brasil iniciou o processo nos Estados Unidos em 2020, buscando reestruturar suas dívidas. Quatro anos depois, a Gol seguiu o mesmo caminho para reorganizar suas finanças. Em 2025, foi a vez da Azul acionar o Chapter 11 na Justiça americana, buscando proteção contra credores.
Essas medidas de reestruturação são essenciais para a sobrevivência das companhias, mas frequentemente exigem ajustes que vão desde a redução de rotas até mudanças nos serviços de bordo, o que pode afetar a percepção de qualidade pelos passageiros.
Qualidade dos serviços sob escrutínio: casos e reclamações
Em meio a esses processos, a qualidade dos serviços das aéreas no Brasil tem sido alvo de críticas recorrentes. Em outubro, um voo da Azul de Madri para Campinas foi cancelado e remarcado diversas vezes, afetando cerca de 300 pessoas.
O advogado Gustavo Mársico, um dos passageiros, relatou a falta de comunicação da companhia: \"Em momento algum houve contato de alguém da Azul com qualquer pessoa que estava nos hotéis. Criamos um grupo para trocar informações. Houve três ou quatro remarcações de voo.\"
Os números do Procon-SP reforçam essa percepção. Entre as três principais empresas, a Azul foi a única a registrar aumento significativo no número de reclamações entre 2021 e 2025, somando 1.964 das 4.366 queixas totais registradas no período.
A Azul, em nota à CNN Money, afirmou que \"atua com foco na qualidade da operação e na excelência do atendimento aos seus clientes, tendo a segurança como valor primordial\", destacando que trabalha para solucionar eventuais falhas dentro das normas regulatórias.
Outro episódio de grande repercussão em 2024 foi a morte do cão Joca, que não resistiu após uma falha no transporte aéreo oferecido pela Gol. O caso levou o Senado a aprovar novas regras para o transporte de animais, evidenciando a necessidade de maior rigor na qualidade dos serviços aéreos.
Desafios estruturais: dólar, custos e judicialização excessiva
Além da pandemia, as aéreas no Brasil enfrentam fatores estruturais que elevam custos e pressionam a qualidade do serviço. O presidente da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), Juliano Noman, destaca o impacto do dólar:
\"A aeronave arrendada no Brasil custa o mesmo valor que nos Estados Unidos. No entanto, a maior parte das receitas é em real, enquanto os principais custos estão atrelados ao câmbio.\"
Outro ponto crítico é o elevado nível de judicialização. Tiago Faierstein, presidente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), afirma que o Brasil, apesar de representar apenas 3% do tráfego aéreo mundial, concentra mais de 90% das ações judiciais globais do setor.
Faierstein ressalta que o problema não é o passageiro lesado, mas a formação de uma verdadeira \"indústria\" de processos. Segundo a Abear, esse cenário gera um custo estimado em R$ 1 bilhão por ano para as companhias.
Para Ygor Bastos, analista da Genial Investimentos, a judicialização excessiva afeta a competitividade do setor, desestimula a entrada de novas empresas e limita investimentos na melhoria dos serviços aéreos.
Perspectivas de melhoria e revisão das normas
O setor aéreo defende a revisão das normas da Anac que estabelecem as obrigações das companhias e os direitos dos passageiros. A agência informou que uma consulta pública com a atualização das regras deve ser lançada em janeiro, com amplo debate antes da implementação.
Enquanto isso, as empresas avançam em seus processos de reestruturação. Latam e Gol já concluíram seus trâmites e voltam a mirar expansão. A Azul, por sua vez, teve seu plano aprovado por um tribunal dos Estados Unidos em dezembro, com expectativa de saída do processo no início do próximo ano.
Apesar das perspectivas positivas, a demanda por melhorias nos serviços aéreos permanece. Gustavo Mársico, mesmo após ser ressarcido, destaca a importância da fiscalização:
\"Não há contrapartida proporcional ao valor pago. Os órgãos de defesa do consumidor deveriam exercer uma pressão maior e fiscalizar de forma mais efetiva.\"
O futuro da qualidade nos serviços aéreos brasileiros
A busca por maior qualidade e equilíbrio entre direitos dos passageiros e sustentabilidade das empresas segue como desafio central das aéreas no Brasil. A reestruturação em curso, a revisão regulatória e o enfrentamento dos custos e da judicialização são etapas essenciais para um setor mais eficiente.
O engajamento dos órgãos reguladores e a pressão dos consumidores serão determinantes para elevar o padrão dos serviços aéreos no país e restabelecer a confiança no transporte aéreo brasileiro.
