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Como John Coltrane trocou a autodestruição pela disciplina em 1957, encontrou Thelonious Monk, ensaiou no Five Spot e gravou ‘Blue Train’ em estúdio
Em 1957, a vida de Coltrane esteve à beira do colapso, e a música virou o caminho de recuperação, prática e obsessão, que reorientou sua carreira.
Depois de ser dispensado do quinteto de Miles Davis, ele passou por um período de abstinência, prática intensa e busca por uma linguagem própria.
Essa fase culminou em sessões decisivas, incluindo a gravação que consolidou uma nova postura artística, conforme informação divulgada pelo Web Stuff, coletivo editorial da Revista Bula.
A queda, a demissão e a sobriedade
Quando Miles Davis o mandou embora, Coltrane tinha 30 anos, enfrentava dependência química e começava a perder compromissos, aparência e confiança.
A demissão não foi uma condenação moral, foi um problema de trabalho, e acabou sendo o gatilho para uma mudança radical na rotina do saxofonista.
De volta à casa da mãe, ele se trancou, atravessou a abstinência e emergiu, segundo relatos, livre das drogas e disposto a colocar a música a serviço de uma missão espiritual.
Monk, o labirinto harmônico
Thelonious Monk ofereceu a Coltrane um desafio diferente do de Miles, colocando um piano dentro do labirinto harmônico, com temas angulosos e paciência para trabalhar frase por frase.
Enquanto Miles ensinava pelo espaço e pelo silêncio, Monk mostrou a mecânica oculta das composições, permitindo que Coltrane gastasse sua energia acumulada em problemas harmônicos maiores.
As temporadas no Five Spot Café serviram como laboratório público, onde solos longos e repetições viraram forma de investigação musical.
‘Blue Train’ e a construção diária do ofício
No dia 15 de setembro de 1957, ele entrou no estúdio de Rudy Van Gelder para gravar ‘Blue Train’, seu único álbum para a Blue Note, com tempo de ensaio e cuidado de repertório.
O disco não inventa tudo de uma vez, mas captura um músico de 31 anos que, livre das drogas, já assumia a autoria da própria confusão e testava novos mecanismos no improviso.
Com faixas como a que dá nome ao álbum, pode-se ouvir uma combinação de aspereza e concentração, a sensação de recuperação e o esforço físico que atravessava seu som.
O passo seguinte e o legado
Coltrane não nasceu em 1957, e o quarto onde teria vencido a abstinência não fabricou um gênio instantâneo, mas criou condições para que o trabalho quotidiano florescesse.
Ele voltaria ao grupo de Miles, participaria de ‘Milestones’ e ‘Kind of Blue’, e mais tarde chegaria a ‘A Love Supreme’, após um processo longo que começou a acelerar naquele ano.
A transformação de 1957 mostra que a verdadeira revolução, muitas vezes, é a capacidade de simplesmente trabalhar com disciplina, e é isso que definiu o caminho artístico que se seguiu.