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Descubra a jornada do lendário T.E. Lawrence, um homem dividido entre mundos, cuja saga épica foi eternizada por David Lean e Peter O’Toole na tela grande, agora ao alcance de um clique.
Considerado por muitos como o maior filme já feito, a obra-prima Lawrence da Arábia, dirigida pelo sofisticado David Lean, está agora disponível para streaming. Esta é uma oportunidade única para o público revisitar ou descobrir pela primeira vez a grandiosidade de uma produção que marcou a história do cinema.
O filme não é apenas uma aventura épica no deserto, mas um profundo mergulho na psique de Thomas Edward Lawrence, um oficial britânico que se tornou uma figura lendária na Revolta Árabe. Sua história é um emaranhado de bravura, idealismo e uma busca incessante por um lugar no mundo.
A análise que se segue, baseada em informações e percepções de Giancarlo Galdino, um jornalista com vasta experiência em cinema e filosofia, desvenda as camadas desse clássico, destacando a genialidade por trás da sua criação e a complexidade de seu protagonista.
A Complexa Figura de T.E. Lawrence
Thomas Edward Lawrence, conhecido como Lawrence da Arábia, foi um homem de muitas ironias. Ele simbolizou uma era de bravura desinteressada, mas terminou a vida preso entre um passado glorioso e um futuro que, curiosamente, ele sempre buscou, mas que o esmagou na alma e na carne.
O oficial britânico, de olhos azuis e cabelos loiros, encontrava-se mais à vontade no calor escaldante do deserto de Nafud do que na pompa dos convescotes do exército britânico. Essa preferência justifica a alcunha que lhe daria fama, uma reputação que, embora controversa, perdura e inspira militares idealistas e visionários, uma química por vezes perigosa.
A Visão Genial de David Lean
David Lean, um dos diretores mais sofisticados de todos os tempos, inicia a narrativa de Lawrence da Arábia pelo final. Essa abordagem poética e dolorosa apresenta a jornada de seu protagonista como um grande devaneio, começando com sua morte aos 46 anos, num acidente de moto, após desviar de duas bicicletas.
A partir desse ponto, Lean convida o público a uma viagem mais extensa, uma síntese de aspirações profissionais e desejos ocultos que se moldam em meio à areia e ao suor do deserto. Este cenário era precisamente o que seus superiores fugiam, sem qualquer traço de virilidade, um capítulo inescapável na biografia de Lawrence.
Em que pese a homossexualidade discreta de Lawrence, seria impensável abordar o tema de forma explícita há seis décadas, quando o filme foi lançado. Contudo, Lean não deixou por menos, utilizando sugestões e diálogos espirituosos para que ninguém tivesse dúvidas sobre essa faceta do personagem, um equilíbrio que é fruto de sua primorosa técnica cinematográfica.
A Saga da Revolta Árabe nas Telas
No filme, Lawrence aparece aristocrático, com cabelo impecavelmente penteado e, segundo as más línguas, máscara para cílios. Ele se apresenta a Huceine ibne Ali, o Xarife de Meca, para juntos liderarem a Revolta Árabe, um movimento que visava à independência dos turcos otomanos e à fundação de um Estado Árabe Unificado, abrangendo de Alepo, na Síria, a Áden, no Iêmen.
O roteiro caudaloso de Robert Bolt concentra-se nos momentos em que Lawrence e Ali trocam confidências, especialmente depois que o inglês, como era chamado pelos turcos, sobrevive a uma longa marcha sob sol inclemente e de garganta seca, uma das provas de seu temperamento férreo. O filme opera nessa lógica binária, mas sem prejuízo da análise e da irreverência, conferindo ênfase a um Lawrence de fato da Arábia, trajado a rigor.
Performances Inesquecíveis e o Legado do Filme
Um dos maiores atores do século 20, Peter O’Toole, entrega uma performance magistral como Lawrence, cativando a audiência e dividindo a tela com outro gigante, Omar Sharif. Ambos os atores brilham em seus papéis, contribuindo para a imortalidade do filme.
Assistir e reassistir a Lawrence da Arábia é um pacto com a beleza de uma Hollywood que, embora possa ser vista como mais ingênua em alguns aspectos, era contudo mais relevante em sua capacidade de criar epopeias grandiosas e personagens complexos que ressoam até hoje. A disponibilidade na Netflix reafirma seu status de clássico atemporal.