Tempo de leitura: 4 minutos
Novo estudo da Universidade Chalmers questiona como a poeira de estrelas, vital para a formação da vida, realmente viaja pelo universo, revendo conceitos estabelecidos.
A icônica frase de Carl Sagan, “somos feitos de poeira de estrelas”, transcende a poesia, representando um pilar da astrofísica moderna e um fato científico comprovado sobre a origem dos elementos que compõem a vida. Oxigênio, carbono e cálcio, por exemplo, não existiam logo após o Big Bang, sendo forjados nas “cozinhas do Universo”: as estrelas.
Contudo, uma pesquisa recente liderada por cientistas da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, levanta uma questão crucial. O estudo sugere que a luz e a própria poeira estelar podem não ser suficientes para impulsionar os poderosos ventos que transportam esses componentes básicos pela galáxia.
Em outras palavras, para que a poeira de estrelas chegue até nós e forme planetas como a Terra, ela precisa primeiro escapar da enorme gravidade estelar. Essa é a essência do novo desafio científico, conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.
A Teoria Clássica da Poeira Estelar em Xeque
Até agora, a explicação predominante para esse fenômeno era relativamente simples. A teoria postulava que as estrelas fabricam átomos, e a luz estelar, composta por fótons, colide com os grãos de poeira como em um jogo de bilhar.
Esse impacto constante da luz empurraria a poeira para longe, arrastando o gás circundante e criando o vento estelar.
Sem esses ventos, o material essencial para a vida permaneceria aprisionado na estrela, nunca atingindo o espaço para formar novos sistemas. Assim, a compreensão de como as estrelas gigantes alimentam seus ventos é fundamental para desvendar a origem da vida em nosso planeta.
No entanto, o estudo de R Doradus, uma estrela gigante rica em oxigênio localizada a cerca de 192 anos-luz da Terra, colocou essa visão tradicional em xeque. A equipe utilizou o instrumento SPHERE/ZIMPOL do Very Large Telescope (VLT), no Chile, para obter imagens de altíssima resolução da luz polarizada refletida pela poeira ao redor da estrela.
Os Enigmas de R Doradus: Pequena e Transparente
Os pesquisadores identificaram dois grandes problemas com a poeira ao redor de R Doradus, desafiando a teoria vigente. O primeiro é a transparência desses grãos, que são compostos por silicatos sem ferro e óxido de alumínio. Esses materiais possuem uma baixa absorção de luz.
Sendo quase transparentes, eles não absorvem energia suficiente para serem empurrados pela luz, nem são impulsionados eficientemente pela reflexão. Essa característica torna a interação com a radiação estelar muito fraca.
Contudo, as medições atuais revelaram que esses grãos são consideravelmente menores, com apenas cerca de 0,1 micrômetro. Esse tamanho é bem abaixo do mínimo de 0,3 micrômetro, que a teoria anterior apontava como necessário para a interação efetiva com a luz.
Thiébaut Schirmer, da Chalmers e primeiro autor do estudo, comentou sobre a metodologia: “Conseguimos, pela primeira vez, realizar testes rigorosos para verificar se esses grãos de poeira conseguem sentir um impulso suficientemente forte da luz da estrela.”
Os resultados foram desconcertantes. Se a poeira de estrelas é pequena demais para ser empurrada pela luz, mas a estrela continua a emitir ventos e perder massa, a teoria de que a “luz empurra poeira” não pode ser a causa principal do vento.
Ou, pelo menos, ela não funciona por si só. Isso significa que a explicação que usamos por décadas para entender como as estrelas espalham os elementos da vida pode estar incompleta.
Em Busca de Novas Explicações para o “Delivery Cósmico”
Apesar dessas descobertas, o artigo reforça a ideia de que “somos feitos de poeira de estrelas”. O desafio agora é tornar a explicação de como essa poeira chega até nós muito mais complexa e intrigante, forçando os astrônomos a buscar alternativas para o mecanismo de transporte cósmico.
Uma das hipóteses é que, para o carbono e o oxigênio estelar formarem planetas e seres vivos, eles podem necessitar de um “tranco” adicional. Isso poderia envolver processos caóticos e turbulentos dentro da estrela, como fervura e emissão de bolhas, pulsações que funcionam como um trampolim, ou surtos e explosões de poeira.
Se a teoria predominante falhou ao explicar os ventos de R Doradus, que é uma das estrelas mais fáceis de estudar em sua categoria, é altamente provável que ela esteja errada ou incompleta para outras estrelas similares no universo.
A comunidade científica agora se volta para novas pesquisas, buscando entender qual foi o verdadeiro “delivery cósmico” que nos trouxe até aqui.