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Descubra como a colaboração lendária entre Scorsese e De Niro transformou a vida do boxeador Jake LaMotta em um estudo visceral de autodestruição.
“Touro Indomável”, uma das obras-primas de Martin Scorsese, continua a ressoar como um dos mais potentes e perturbadores retratos biográficos do cinema. Estrelado por um inesquecível Robert De Niro, o filme mergulha na psique de Jake LaMotta, o lendário boxeador, com uma intensidade que poucas produções conseguiram replicar.
Esta colaboração icônica entre diretor e ator entrega uma experiência que transcende o esporte, explorando as profundezas da natureza humana, suas falhas e a capacidade de autodestruição. É um filme que não oferece conforto, mas sim um espelho cru para a complexidade de um homem.
Disponível na Netflix, esta produção é considerada por muitos como um dos trabalhos mais implacáveis de Scorsese, um filme que se recusa a romantizar seu protagonista. Conforme análise de Fernando Machado, jornalista e cinéfilo da Cantuária Sites, a obra estabelece um pacto rigoroso com o espectador desde a primeira imagem.
A Brutalidade de Jake LaMotta: Além do Ringue de Boxe
A vida de Jake LaMotta, interpretado magistralmente por Robert De Niro, não conhece limites entre o ringue e o cotidiano. A mesma força que o mantinha em pé diante dos golpes mais duros é a que moldava suas relações mais íntimas, seja com o irmão Joey, vivido por Joe Pesci, ou com a esposa Vickie, papel de Cathy Moriarty.
A agressividade, neste retrato biográfico implacável, não é um surto ocasional, mas sim um idioma constante, uma forma de comunicação dominante. No universo do boxe, essa postura se traduzia em vitórias e reconhecimento, mas fora dele, gerava uma espiral de paranoia, ciúme e um isolamento progressivo e doloroso.
LaMotta enxergava traições onde não havia, interpretava gestos simples como afrontas pessoais e respondia invariavelmente com intimidação ou violência. O filme, de Martin Scorsese, evita explicações psicológicas fáceis, recusando-se a justificar a brutalidade por traumas passados. A violência é apresentada como uma escolha reiterada, quase um hábito, tornando-a ainda mais perturbadora para quem assiste.
A Destruição Metódica de um Homem
Desde o início, “Touro Indomável” subverte a narrativa convencional de ascensão e queda. O filme já revela o desfecho de LaMotta, mostrando-o envelhecido, inchado e reduzido a shows de cabaré, antes de retroceder no tempo para o auge de sua carreira no boxe. Essa decisão narrativa remove qualquer suspense sobre “o que vai acontecer”.
Em vez disso, o foco de Martin Scorsese se desloca para “como” um homem pode, com uma persistência quase metódica, destruir tudo aquilo que toca. Não se trata de uma tragédia inesperada, mas de uma autodestruição construída passo a passo, detalhe por detalhe, diante dos olhos do espectador.
Fernando Machado, da Cantuária Sites, ressalta que o interesse do filme reside justamente nesse estudo de caráter, em permanente atrito com o mundo. É um convite a observar a complexidade de um indivíduo que parece incapaz de lidar com a vida fora da brutalidade controlada do ringue.
O Corpo e o Tempo: Uma Jornada de Degradação Irreversível
A passagem dos anos em “Touro Indomável” não traz amadurecimento, mas um desgaste implacável, tanto físico quanto moral. O corpo de LaMotta, que antes era uma ferramenta de domínio e força no boxe, transforma-se lentamente em um fardo, um peso que ele não consegue mais controlar.
Robert De Niro, em uma das mais impressionantes transformações físicas do cinema, enfatiza essa degradação ao alterar radicalmente sua aparência. Contudo, o impacto maior reside na forma como Martin Scorsese filma a perda de controle de LaMotta sobre sua própria vida, não apenas sobre seu físico.
O campeão que suportava golpes para provar sua resistência passa a ser derrotado pela própria incapacidade de lidar com frustrações cotidianas. A relação com o irmão Joey, antes baseada em lealdade, desmorona em uma das sequências mais tensas do filme, ilustrando o preço da agressividade desmedida. Sem o ringue para canalizar seu caos, LaMotta se revela um homem sem disciplina, incapaz de negociar afetos ou limites.
A Estética Sem Concessões de Scorsese em Preto e Branco
A escolha pelo preto e branco em “Touro Indomável” não é meramente um capricho estético, mas um reforço visual da aridez moral da narrativa. As cenas de luta são coreografadas por Martin Scorsese como eventos quase abstratos, pontuadas por sons secos e uma montagem agressiva que intensifica a brutalidade.
Já a vida doméstica de LaMotta é retratada em espaços fechados e sufocantes, que amplificam a sensação de claustrofobia e desespero. Scorsese, neste retrato biográfico implacável, não busca romantizar a autodestruição do boxeador, nem transformá-la em um espetáculo catártico de redenção.
O ato final, com Jake LaMotta repetindo falas diante do espelho, sugere apenas uma consciência tardia e incompleta, longe de uma plena redenção. “Touro Indomável”, disponível na Netflix, mantém sua relevância duradoura justamente por sua recusa em consolar, confrontando o espectador com a pergunta incômoda: o que resta quando a força que impulsiona o sucesso é a mesma que inviabiliza qualquer forma de convivência?