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Esquecimento mata quando lembranças se despedaçam, quando filhos veem pais delirando na UTI e quando a indiferença social e médica transforma perda em apagamento
O esquecimento não é só uma falha da memória, é uma violência silenciosa que corrói laços, direitos e dignidade. O relato do escritor e médico Eberth Vêncio traz isso para perto, em um quadro que mistura perda, cuidado precário e solidão.
No texto, imagens breves e contundentes se sucedem, e o leitor acompanha a tensão entre a presença física e a ausência reconhecida pela lembrança. A cena final, de um filho que não é reconhecido pelo pai, capta o drama do esquecimento.
conforme texto publicado na Revista Bula por Eberth Vêncio.
Memórias fragmentadas, culpa e o rosto do esquecimento
No relato, a repetição das primeiras frases cria um efeito de choque, e o autor escreve, com exatidão, “Meu pai está morto. Meu pai está vivo. Meu pai claudica na minha memória em frangalhos.” Essas frases mostram como o esquecimento mata ao transformar o passado compartilhado em fragmentos desconexos.
O pai do texto morreu aos 83 anos, embora, segundo o autor, “esperasse pela morte desde os 35”. Essa antecipação da perda acompanha famílias inteiras, e a memória passa a ser um território instável, onde a presença física não garante o reconhecimento emocional.
O delirium na UTI e a falha das redes de cuidado
O episódio na UTI é central para entender como o esquecimento mata de maneiras concretas, quando sistema de saúde e relações familiares se mostram frágeis. O autor descreve o pai contido, com ataduras e confuso, pedindo para ser solto e oferecendo dinheiro, revelando o sofrimento do paciente delirante e a impotência de quem está ao lado.
Na passagem em que o paciente diz “deixa de brincadeira você não é meu filho nem aqui nem na China”, está a crueldade do momento, a perda de vínculo que assusta e paralisa. A equipe médica age para tratar a sepse e preparar nova intervenção, mas o desfecho segue incerto e doloroso.
Esquecimento mata além da morte, é apagamento social
O texto também aponta para uma dimensão social do esquecimento, quando o autor lembra de práticas do passado em que necropsias não eram feitas em populações pobres, e quando suspeitas e estigmas cercavam mortes. Essa omissão institucional e cultural amplia o efeito do esquecimento, tornando famílias invisíveis na dor.
O autor conclui com uma nota íntima e definitiva, ao afirmar, em palavras que ecoam: “Eu nunca te esqueço, pai. Tintim!” Essa afirmação contrapõe o apagamento, reafirma um vínculo e lembra que, mesmo diante do abandono e do delírio, resta a lembrança como resistência.
O que fica e o que falta, lições do relato
O relato de Eberth Vêncio serve como alerta, tanto para famílias quanto para profissionais de saúde e para políticas públicas. O esquecimento mata quando falham o cuidado digno, a atenção aos estados mentais de pacientes e a memória coletiva que honra quem partiu.
Fica a necessidade de práticas que atenuem a solidão dos pacientes, apoio a familiares e uma reflexão sobre como a sociedade trata a velhice, a doença e a perda. Reconhecer a dor narrada é o primeiro passo para evitar que o esquecimento continue a ferir, social e emocionalmente.