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Reinaldo Moraes entrega em ‘Noitada’ uma imersão na noite caótica de São Paulo, acompanhando Kabeto, um escritor cinquentão em uma ressaca pornográfica e existencial que se revela feroz e brilhante.
Reinaldo Moraes, um dos nomes mais icônicos da literatura brasileira contemporânea, retorna com seu novo romance, ‘Noitada’. A obra, publicada pela Todavia, promete ser uma experiência literária intensa, combinando obscenidade, humor afiado e uma profunda reflexão sobre a decadência masculina e a vida urbana.
O livro convida o leitor a mergulhar em uma noite insana na vida de Kabeto, um escritor cinquentão que se vê enredado em uma sequência de eventos que culminam em uma suruba em Higienópolis. É uma narrativa que não poupa detalhes, entregando uma ressaca pornográfica, feroz e inegavelmente brilhante.
Com mais de 450 páginas, ‘Noitada’ se destaca como um dos livros mais divertidos do ano, oferecendo uma visão crua e sem filtros da São Paulo de 2013 e de seus personagens complexos, conforme informações divulgadas pelo jornalista Carlos Willian Leite.
A Odisseia Noturna de Kabeto: Sexo, Literatura e Caos em São Paulo
A trama de ‘Noitada’ começa com Kabeto já meio derrotado, mas ainda com uma esperança para a noite que se inicia. Ele está em um táxi, acompanhado por Mina, sua ex-namorada e parceira sexual, com um iPhone aceso e um pino de cocaína sendo administrado com certa cerimônia, tudo isso a caminho de uma prometida suruba em Higienópolis.
Lá fora, a cidade de São Paulo em 2013 fervilha com trânsito, manifestações, buzinas e aquela irritação diária que parece subir do asfalto. Dentro do carro, Kabeto, um escritor cinquentão, bêbado e vaidoso, com uma reunião marcada para as 10h da manhã, ainda tenta acreditar que seu corpo lhe proporcionará algum tipo de glória antes do expediente.
A estrutura do romance é simples, quase teatral. Primeiro, o táxi transporta Kabeto e Mina até o apartamento de Audra, uma atriz ruiva, lituana da Vila Zelina. Audra é ligada ao teatro, ao pó, ao gim e a uma desenvoltura sexual que desorganiza a mente do protagonista antes mesmo de ele a conhecer por completo.
Em seguida, a narrativa se entrincheira nesse apartamento de Higienópolis, entre champanhe rosé, conversas pornográficas, vídeos de uma montagem libertina do grupo Covil e a expectativa de uma terceira mulher. Finalmente, a madrugada escorre para a kitinete de Kabeto, na Roosevelt, onde a excitação já se mistura a pânico, cansaço, lombalgia e o canto dos sabiás-laranjeira, os insuportáveis fiscais do amanhecer.
Reinaldo Moraes, nascido em São Paulo em 1950, construiu sua reputação com ‘Tanto Faz’, de 1981, e alcançou status de culto com ‘Pornopopeia’, de 2009. Em ‘Noitada’, ele retorna ao seu terreno mais familiar: a fala masculina em combustão, a digressão de bar, o palavrão usado como vírgula e o sujeito que transforma qualquer assunto em performance.
Kabeto pensa em ondas, e cada uma delas carrega consigo sexo, literatura, rancor, música, política, memória editorial, piadas ruins, erudição torta, medo da velhice e um cálculo frio do próprio desempenho. Moraes acompanha esse fluxo sem tentar higienizá-lo, permitindo que a cabeça de Kabeto salte, volte, se contradiga, se excite e se ofenda.
No táxi, o romance encontra algumas de suas páginas mais vívidas. A embriaguez não se transforma em neblina, mas em sintaxe. Uma ideia esbarra na outra, o desejo se atravessa pela vaidade e a libido, ao se imaginar como pensamento filosófico, acaba falando como um habitué de balcão.
São Paulo, um Palco Cru e Realista para a Noitada
Em ‘Noitada’, São Paulo não é apenas um cenário decorativo, mas um personagem ativo que atrapalha, demora, buzina, congela e encarece a corrida, separando o bar da cama prometida. O Edifício Bretagne, as ladeiras de Higienópolis, a Roosevelt e a Consolação desenham uma geografia reconhecível, mas longe de ser turística.
Moraes trata cada deslocamento como um pequeno castigo. Ir de um lugar a outro nunca é neutro, sempre altera a temperatura moral da cena. No apartamento de Audra, o luxo meio kitsch, a vitrola, o Buda gordo, a telona e o champanhe introduzem a diferença de classe de forma sutil, mas impactante.
Já na kitinete de Kabeto, o lençol sujo, o aquecedor pobre e a pia que serve para louça e para o resto fazem a conta da realidade chegar sem a necessidade de um sociólogo para explicar o estrago. A cidade é um reflexo das escolhas e da decadência dos personagens, um pano de fundo vivo para esta noitada.
A Obscenidade Como Espelho Social em ‘Noitada’
O sexo ocupa um espaço enorme em ‘Noitada’, por vezes até demais, mas, tratando-se de Reinaldo Moraes, talvez esse ‘demais’ não exista ou nunca tenha existido em sua obra. Ele descreve corpos, fluidos, falhas, posições, próteses, fantasias e pudores com uma mistura de comicidade fisiológica e desprezo ao bom gosto.
Quando funciona, e quase sempre funciona, a obscenidade revela o ridículo dos personagens. Kabeto anseia por parecer livre, mas tropeça em ciúme, medo anal, machismo, culpa paterna e vaidade de escritor. Mina e Audra, mais jovens e rápidas, desarmam sua pose, embora também sejam filtradas pelo olhar dele, um olhar que tudo deseja e tudo transforma em comentário.
A diferença geracional adiciona faísca ao romance. O cinquentão que se julga experiente descobre, repetidas vezes, que a experiência também caduca. Há momentos em que Moraes estica a piada, volta à enumeração escatológica e prolonga uma cena sexual até a página começar a pesar nas mãos do leitor.
Contudo, esse excesso não surge como um defeito externo ao livro. Ele nasce da própria aposta de ‘Noitada’, de uma prosa que prefere avançar por acúmulo, insistência e pela graça suja das coisas levadas um pouco além do aceitável. Ir um pouco além, aliás, costuma ser o endereço natural de Reinaldo Moraes.
O Legado de Reinaldo Moraes e a Força do Excesso
A virada familiar que atravessa o segundo movimento da narrativa de ‘Noitada’ muda o tom. A comédia pornográfica ganha contornos de ferida, com elementos de paternidade negligente, abandono e vergonha, revelando um laço de sangue que Kabeto preferiu transformar em nota de rodapé. Moraes não abandona o riso, mas permite a entrada de um frio desconcertante.
O melhor dessa parte reside menos no choque da revelação e mais no mal-estar que ela instala. A falação pornográfica de Kabeto começa a parecer também uma técnica de fuga. Enquanto comenta, enumera, exagera, interpreta e faz graça, ele adia a pergunta mais simples, e também a pior: o que fez da própria vida?
‘Noitada’, assim como praticamente toda a obra de Reinaldo Moraes, é um convite para o leitor que aceita dividir a sala com personagens inconvenientes, narradores moralmente avariados e uma linguagem em estado de embriaguez (quase) controlada. Quem busca elegância, personagens exemplares ou erotismo com luz baixa e lençol passado, possivelmente sofrerá, e talvez mereça um pouco desse desconforto.
O humor na obra de Moraes nasce do excesso, a inteligência da sujeira e o risco da crença de que a desmedida, quando tem ritmo, pode sustentar quase tudo. Na madrugada final, já com o corpo quebrado, Kabeto tenta dormir enquanto Mina lhe oferece uma espécie de massagem imprópria e Audra desaparece no banheiro. Lá fora, os sabiás começam a tomar a cidade.
Dentro da kitinete, o homem que passou a noite falando, gozando, fugindo e interpretando tudo já não consegue mover direito a própria carcaça. A cena não precisa de explicações, apenas daquele corpo cansado, da dor na lombar, da fanfarra verbal reduzida a um mau jeito físico e de uma porta de banheiro que se abre novamente.
Talvez ‘Noitada’ não supere a grandiosidade de ‘Pornopopeia’, mas chega perto o suficiente para tornar a comparação inevitável, consolidando Reinaldo Moraes como um mestre em narrar as complexidades e os excessos da existência humana em um cenário urbano caótico.