Tempo de leitura: 4 minutos
Descubra como a obra-prima sobrenatural dirigida por Francis Lawrence explora a disputa entre o bem e o mal, oferecendo uma visão desencantada da redenção humana.
O filme "Constantine", um verdadeiro clássico do terror sobrenatural que marcou o cinema, está agora disponível para streaming na HBO Max, prometendo mergulhar os espectadores em um universo sombrio onde as fronteiras entre o bem e o mal são tênues e perigosas. Estrelado por Keanu Reeves no papel icônico do exorcista John Constantine, a produção oferece uma perspectiva única e desafiadora sobre a batalha celestial e infernal.
A adaptação cinematográfica, que bebe diretamente da mitologia criada por Alan Moore para os quadrinhos, apresenta uma trama envolvente de investigação e dilemas morais, onde o destino da humanidade pende por um fio em meio a forças poderosas que pouco se importam com o sofrimento alheio. É uma jornada que questiona a fé, a redenção e o livre-arbítrio em um cenário apocalíptico.
Dirigido por Francis Lawrence, o longa-metragem se destaca por sua atmosfera desencantada e por não oferecer soluções fáceis, conforme análise de Fernando Machado, jornalista e cinéfilo, que destaca a complexidade e a coesão da narrativa.
John Constantine: O Exorcista Amargurado
O protagonista John Constantine, interpretado magistralmente por Keanu Reeves, é introduzido ao público como um exorcista cínico, que transita entre os mundos dos vivos e do inferno após uma experiência de quase morte em sua juventude. Marcado por um câncer terminal e pela certeza de uma condenação iminente, ele não age por altruísmo, mas por um cálculo moral complexo.
Sua motivação principal é salvar almas em uma tentativa tardia de negociar seu próprio destino, buscando uma redenção que parece inalcançável. Reeves constrói um personagem contido, de gestos econômicos e fala seca, alinhando-se perfeitamente a essa lógica pragmática e desiludida do filme "Constantine". Sua postura corporal e o olhar cansado são mais reveladores do que qualquer explosão emocional.
A Busca por Respostas e a Âncora Racional
A entrada de Angela Dodson, vivida por Rachel Weisz, introduz o eixo investigativo crucial do enredo de "Constantine". A policial busca desesperadamente respostas para o suicídio de sua irmã gêmea Isabel, também interpretada por Weisz, e se recusa veementemente a aceitar explicações sobrenaturais para o ocorrido.
Essa resistência inicial de Angela não serve apenas como um contraste narrativo, mas funciona como um ponto de ancoragem racional para o espectador, que é gradualmente inserido nesse universo complexo. A trajetória da personagem é menos sobre fé e mais sobre a necessidade de compreender um sistema que opera à margem das leis humanas, estabelecendo uma relação de necessidade mútua com Constantine.
Anjos e Demônios: Uma Hierarquia Cruel
À medida que a investigação avança, o filme "Constantine" explicita sua visão hierárquica e muitas vezes brutal do bem e do mal. Gabriel, interpretado por Tilda Swinton, surge como uma figura ambígua e fria, distante da imagem tradicional de um anjo benevolente, sugerindo que a crueldade pode coexistir com a ideia de ordem divina.
Em oposição a Gabriel, Balthazar, vivido por Gavin Rossdale, representa o caos violento e direto, funcionando como um executor de interesses maiores no conflito entre as dimensões. O confronto entre essas entidades revela que a disputa central no universo de "Constantine" não é meramente moral, mas profundamente estratégica, com implicações cósmicas.
Lúcifer e a Redefinição da Salvação
O ponto de inflexão na trama de "Constantine" ocorre com a aparição marcante de Lúcifer, interpretado por Peter Stormare. Em poucos minutos, o personagem redefine completamente o tom do desfecho, com sua presença que não se apoia na grandiloquência, mas em um sarcasmo controlado e uma compreensão absoluta das regras do jogo.
Lúcifer não precisa ameaçar; ele observa, negocia e interfere apenas quando lhe convém, demonstrando um poder calculista. Esse encontro final esclarece o tema central do filme de terror: a salvação, quando existe, nasce menos da fé cega do que da escolha consciente diante da própria ruína, um desfecho que ressoa com a complexidade da mitologia de Alan Moore.
Narrativamente, "Constantine" pode sofrer com um ritmo por vezes irregular, demorando a explicitar seus objetivos centrais, mas mantém uma notável coesão ao articular investigação policial, mitologia religiosa e drama existencial em um mesmo eixo. O uso equilibrado de efeitos práticos e digitais sustenta o universo proposto sem se tornar uma distração vazia.
O resultado final é um filme de terror que não busca agradar a todos indiscriminadamente, mas sustentar uma visão de mundo consistente e desafiadora, onde o ser humano é, em última instância, responsável por suas próprias decisões, mesmo quando cercado por forças que operam muito acima de sua compreensão. Constantine é um título essencial para fãs do gênero e já está disponível na HBO Max.